Entre mundos e palavras: conversa com um tradutor de ficção científica

Traduzir ficção científica espanhola para o português exige muito mais do que transportar frases de uma língua para outra. O tradutor precisa preservar vozes, ritmos e referências culturais enquanto recria tecnologias imaginárias, sociedades futuras e conceitos que talvez ainda não tenham nome no idioma de chegada.

Para compreender esse trabalho, conversámos com Rafael Duarte, tradutor literário especializado em fantasia, horror e ficção científica. A conversa passa por neologismos, humor, inteligência artificial, revisão editorial e pelo desafio de manter a estranheza de uma obra sem tornar a leitura artificial.

A primeira leitura de um universo desconhecido

Como começa o seu trabalho quando recebe um romance de ficção científica?

Rafael Duarte: Começo por ler o livro inteiro sem traduzir. Preciso perceber a temperatura da narrativa, a relação entre as personagens e a lógica do mundo criado pelo autor. Um romance espacial com humor ácido pede soluções diferentes de uma história pós-apocalíptica, mesmo que ambos tenham robôs, colónias e conflitos políticos.

Também preparo um mapa de termos recorrentes. Registo nomes de instituições, tecnologias, espécies, armas, profissões e expressões inventadas. Isso evita que uma mesma ideia apareça com traduções diferentes e ajuda a construir uma coerência interna. Em editoras que apostam em vozes originais e livros visualmente cuidados, essa consistência faz parte da experiência do leitor, tanto quanto a capa ou a composição da página.

A leitura crítica da sátira literária também pode ser útil, porque muitos autores de ficção científica usam sociedades futuras para comentar problemas muito atuais. A ironia precisa de sobreviver à mudança de idioma sem perder o alvo.

Neologismos entre a precisão e a música

Os termos inventados são a maior dificuldade?

São uma das maiores, mas não necessariamente a maior. Um neologismo pode ser tecnicamente complexo e ainda assim ter uma solução intuitiva. O problema aparece quando a palavra inventada carrega som, humor, classe social ou uma referência escondida. Nesses casos, uma tradução literal pode explicar o sentido e destruir a personalidade do termo.

Procuro descobrir o princípio por trás da invenção. Se o autor espanhol juntou duas palavras comuns para criar o nome de uma máquina, tento fazer o mesmo em português. Se a escolha sugere linguagem burocrática, militar ou popular, essa camada também deve aparecer. Nem sempre a forma mais próxima é a mais fiel.

E como decide entre manter um termo espanhol e adaptá-lo?

A manutenção só funciona quando o estranhamento é deliberado ou quando o termo pertence a uma cultura específica do universo ficcional. Caso contrário, pode parecer descuido. O leitor português precisa sentir que entrou num mundo novo, mas não que está a tropeçar numa solução provisória.

Ritmo, humor e vozes distintas

Uma nave pode atravessar uma galáxia em segundos, mas uma piada continua dependente de ritmo. Em traduções de ficção especulativa, o humor exige atenção especial porque nasce de trocadilhos, contrastes de registo, referências populares e situações absurdas. O tradutor precisa encontrar um efeito equivalente, mesmo que as palavras mudem completamente.

Há espaço para alterar uma piada?

Há, desde que a alteração preserve a função narrativa. Se uma personagem parece engraçada porque fala de modo excessivamente formal, o português deve manter essa formalidade. Se a graça vem de uma expressão idiomática espanhola, talvez seja necessário substituí-la por uma expressão portuguesa com impacto semelhante. A fidelidade está no efeito produzido, não numa cópia mecânica.

A organização de uma coleção de leituras pode revelar como esses tons convivem. Uma estante de humor e fantasia mostra que uma obra irreverente pode dialogar com o horror, a sátira e a aventura sem perder a sua identidade. O mesmo vale para o catálogo de uma editora: cada livro tem uma voz, mas todos precisam de pertencer a um universo editorial reconhecível.

Decisões que exigem pesquisa

O tradutor de romances espanhóis trabalha com fontes muito variadas. Pesquisa astronomia para compreender uma órbita, história para interpretar uma referência política e terminologia científica para não transformar um conceito plausível numa afirmação errada. Ainda assim, a pesquisa não pode dominar o texto.

Que ferramentas utiliza durante a tradução?

Uso dicionários gerais, corpora, glossários técnicos e documentos de referência. Também mantenho uma base terminológica própria, atualizada ao longo do projeto. O mais importante, porém, continua a ser reler em voz alta. A ficção científica tem muitos nomes compostos e frases densas; ouvir o texto denuncia repetições e construções pesadas.

Alguns recursos fazem parte da rotina:

A inteligência artificial pode ajudar a localizar repetições ou sugerir alternativas, mas não substitui a interpretação. Uma ferramenta reconhece padrões; raramente entende por que uma frase precisa de soar fria, infantil ou ameaçadora naquele momento específico.

O diálogo com autores e editores

A tradução é uma atividade individual durante muitas horas, mas o livro nasce de uma colaboração. Editores, revisores, preparadores e designers participam de decisões que afetam a leitura. Em obras com mapas, notas, ilustrações ou termos inventados, a comunicação entre as áreas torna-se ainda mais importante.

Que tipo de pergunta costuma enviar ao autor?

Pergunto sobre ambiguidades intencionais, relações entre personagens e referências que podem desaparecer na tradução. Também confirmo se determinado erro científico é deliberado ou se resulta da voz de uma personagem. Não quero corrigir o autor por reflexo. Quero saber o que o texto está a fazer.

Para a editora, a história da Bestia Negra ajuda a perceber o contexto de um catálogo que valoriza literatura de género, humor irreverente e propostas fora do convencional. O tradutor precisa de conhecer esse posicionamento, porque uma decisão lexical também comunica o tipo de livro que chega às mãos do leitor.

O que fica depois da última página

Como sabe que a tradução está pronta?

Quando deixo de perseguir a frase espanhola e começo a ouvir o romance em português. A tradução final não deve parecer uma sombra do original. Deve funcionar como obra literária autónoma, preservando o imaginário, a estrutura e as emoções do texto de partida.

Há sempre perdas inevitáveis. Uma referência pode exigir nota, uma aliteração pode mudar e uma piada pode ganhar outra forma. O objetivo é escolher essas perdas com consciência e compensá-las noutros pontos. A boa tradução cria uma passagem invisível: o leitor atravessa-a sem deixar de sentir a distância entre as culturas.

Alguns critérios orientam essa última revisão:

Para Rafael, traduzir ficção científica é aceitar que cada palavra participa da construção do futuro. “Quando o leitor acredita naquele mundo, mesmo que ele tenha três luas e leis físicas diferentes, sei que o trabalho cumpriu a sua função”, afirma. A tradução desaparece, mas deixa aberta a porta para que outra língua também possa imaginar o impossível.