Entrevista ao designer dos gift packs de horror gótico

Há objetos que prolongam a experiência de uma história para além da última página. Nos gift packs de horror gótico da Editorial Bestia Negra, o livro convive com ilustrações, impressos decorativos e pequenos detalhes concebidos para transformar a leitura num ritual visual. A embalagem deixa de ser apenas proteção e passa a funcionar como uma porta de entrada para atmosferas de castelos abandonados, criaturas ambíguas e noites sem Lua.

Para compreender as escolhas por trás dessas edições, conversámos com Tomás Valverde, designer responsável pela direção visual de vários packs da editora. Na entrevista, ele fala sobre referências, materiais, equilíbrio entre beleza e inquietação, e sobre a forma como um produto editorial pode dialogar com leitores, colecionadores e admiradores da literatura fantástica.

Entre a leitura e o objeto colecionável

Como nasceu a ideia de criar gift packs dedicados ao horror gótico?

Tomás Valverde — A proposta surgiu da vontade de tratar o livro como uma peça de coleção sem retirar importância ao conteúdo literário. O horror gótico possui uma identidade visual muito forte: arquitetura decadente, tecidos pesados, cera derretida, jardins selvagens e uma sensação constante de segredo. O desafio era reunir esses sinais num conjunto que parecesse coerente, mas que não se transformasse numa decoração previsível.

Um gift pack precisa de oferecer uma experiência progressiva. Primeiro, a pessoa vê a caixa; depois descobre o livro, os impressos e os elementos complementares. Cada camada deve reforçar a narrativa. Trabalhamos para que o leitor reconheça uma atmosfera antes mesmo de saber todos os detalhes da edição, como se tivesse encontrado um objeto proveniente do universo da obra.

Que papel desempenham os brindes?

Não os considero acessórios dispensáveis. Um marcador, um postal ilustrado ou uma pequena impressão podem ampliar a relação afetiva com o livro. Pensamos no uso quotidiano desses objetos: algo que possa permanecer sobre uma secretária, numa estante ou junto da poltrona de leitura. O elemento promocional precisa de ter autonomia estética e, ao mesmo tempo, conservar uma ligação clara com o título.

A linguagem visual do medo

Quais são as referências mais importantes para o seu trabalho?

A pesquisa começa na literatura, mas atravessa muitas áreas. Consulto gravuras antigas, cenários de filmes expressionistas, ilustração científica, arquitetura funerária e padrões de tecidos históricos. Também observo como a luz aparece em pinturas de diferentes períodos. No horror gótico, a sombra não serve apenas para esconder; ela sugere que existe algo fora do enquadramento.

A escolha cromática costuma partir de uma paleta reduzida. Preto, marfim, vermelho escuro, verde musgo e azul noturno aparecem com frequência, mas nunca como uma fórmula fixa. A textura ajuda a evitar que a composição se torne plana. Um papel granulado, uma mancha irregular ou uma impressão com ligeiro desalinhamento podem transmitir o envelhecimento imaginário de um documento.

Essa atenção à imagem acompanha a forma como as capas influenciam a perceção de um livro. A análise sobre estética do horror mostra precisamente como tipografia, cor e composição criam expectativas antes da leitura. Nos packs, essa primeira impressão precisa de continuar em todos os componentes.

O equilíbrio entre elegância e inquietação

Como evitar que o horror gótico pareça apenas ornamental?

A elegância é importante, mas não pode neutralizar a ameaça. Quando tudo é excessivamente polido, o resultado aproxima-se de um objeto decorativo genérico. Procuro sempre introduzir uma pequena perturbação: uma figura quase escondida, uma proporção estranha, uma frase interrompida ou um símbolo cuja função não seja imediatamente explicada.

Também é essencial respeitar o tom da obra. Um romance de fantasmas pede uma abordagem diferente de uma narrativa sobre monstros, bruxaria ou decadência familiar. O design deve interpretar o livro, não substituí-lo. A atmosfera funciona melhor quando deixa espaço para a imaginação do leitor.

Há algum erro recorrente neste tipo de projeto?

O excesso de referências é um dos mais comuns. Ao tentar demonstrar que conhecemos o género, podemos acumular caveiras, corvos, luas, rosas e vitrais até eliminar qualquer identidade própria. Um bom conceito precisa de selecionar, não de juntar tudo. Às vezes, uma única janela iluminada comunica mais do que uma composição cheia de símbolos.

Outro risco é confundir envelhecimento com desleixo. Texturas gastas, manchas e rasgões devem ser controlados para parecerem intencionais. A materialidade do pack pode evocar um arquivo antigo, mas a produção continua a exigir precisão, boa leitura e resistência ao manuseamento.

Materiais, impressão e experiência tátil

Que decisões técnicas fazem diferença no resultado final?

O papel modifica profundamente a perceção de uma imagem. Para uma ilustração de atmosfera funerária, uma superfície mate pode oferecer a profundidade necessária; para um postal inspirado numa gravura, uma textura mais fibrosa cria uma sensação artesanal. Também avaliamos a gramagem, a forma como a tinta absorve e o modo como cada peça será guardada dentro da caixa.

A embalagem deve ser resistente, porque o público compra estes conjuntos para oferecer, colecionar ou conservar. Ao mesmo tempo, não queremos criar uma barreira entre a pessoa e o conteúdo. A abertura precisa de ser simples, mas revelar os elementos numa ordem visualmente satisfatória. Um pequeno encaixe, uma fita ou uma mensagem impressa no interior pode tornar esse momento mais memorável.

A sustentabilidade entra nesse processo?

Entra desde a fase de planeamento. Reduzimos componentes que não acrescentam valor, escolhemos formatos que aproveitam melhor as folhas de impressão e preferimos materiais recicláveis sempre que o acabamento permite. O luxo de um gift pack não depende da quantidade de peças, mas da coerência do conjunto.

Há também uma dimensão de permanência. Um objeto bem desenhado não precisa de ser descartado depois da compra. Se o postal pode ser emoldurado, se a caixa pode guardar cartas ou se o marcador continua útil durante anos, o projeto ganha uma segunda vida. Essa durabilidade faz parte da experiência editorial.

O diálogo com a decoração e a cultura visual

Os gift packs são pensados para leitores ou para colecionadores?

Para ambos. O leitor procura uma ligação mais intensa com a obra, enquanto o colecionador observa a qualidade, a exclusividade e a consistência da edição. Existe ainda um público interessado em decoração, que encontra nestes objetos uma forma de levar a literatura para o espaço doméstico. O design precisa de acolher essas motivações sem perder o núcleo narrativo.

Os impressos literários têm um papel especial nesse cruzamento. A procura por posteres literários minimalistas demonstra que muitos leitores desejam peças capazes de dialogar com interiores contemporâneos. No horror gótico, isso pode significar reduzir os elementos e deixar que uma silhueta, uma frase ou uma moldura arquitetónica concentre toda a tensão.

Como imagina esses objetos fora da loja?

Imagino-os em casas muito diferentes. Alguns estarão numa biblioteca carregada de volumes, outros num quarto com decoração discreta, e talvez alguns sejam oferecidos a pessoas que ainda não conhecem o catálogo da editora. Essa circulação é importante porque transforma o pack numa extensão visível da literatura.

Gosto da ideia de que uma peça possa despertar curiosidade sem explicar tudo. Um visitante vê uma imagem, pergunta pela sua origem e descobre um livro, um autor ou uma editora independente. O objeto cria uma pequena passagem entre a cultura impressa e a vida quotidiana.

O futuro dos presentes editoriais

Que caminhos gostaria de explorar em próximos projetos?

Tenho interesse em trabalhar mais com elementos narrativos escondidos. Podem ser inscrições no interior da embalagem, mapas fragmentados, selos fictícios ou ilustrações que revelam pormenores quando observadas de perto. O leitor contemporâneo valoriza essa descoberta gradual, especialmente quando o design recompensa a atenção.

Também gostaria de explorar combinações entre técnicas tradicionais e acabamento digital. Uma gravura desenhada à mão pode conviver com uma composição tipográfica rigorosa, enquanto pequenas diferenças de cor ou relevo conferem personalidade ao conjunto. A tecnologia deve servir a atmosfera, e não tornar-se o centro da experiência.

O que define, afinal, um bom gift pack de horror gótico?

É aquele que parece ter uma história antes de ser aberto e continua a sugerir histórias depois de ser guardado. Precisa de respeitar o livro, oferecer qualidade material e criar uma identidade própria. O medo não depende de imagens explícitas; muitas vezes nasce daquilo que o design decide ocultar.

Quando a embalagem, a capa e os brindes trabalham na mesma direção, o leitor recebe mais do que um conjunto de produtos. Recebe uma interpretação visual, tátil e emocional de uma obra. É nessa convergência entre literatura e objeto que o horror gótico encontra uma forma renovada de permanecer presente.