Entrevista com um autor que mistura horror e humor
Há histórias que provocam um arrepio imediato e, no parágrafo seguinte, arrancam uma gargalhada desconfortável. Esse equilíbrio instável entre medo e comicidade tornou-se uma das combinações mais férteis da literatura fantástica contemporânea. Quando funciona, o humor não diminui o horror: torna-o mais próximo, absurdo e perturbador.
Para compreender esse mecanismo, conversámos com Tomás Varela, autor fictício de O condomínio das almas penadas, romance que reúne fantasmas burocratas, vizinhos agressivos e uma administração infernal. A sua escrita transita entre a sátira, o terror sobrenatural e o humor negro, sem abandonar a atmosfera inquietante.
A conversa também passa pela construção de personagens ridículas, pelos limites da paródia e pelo prazer de publicar livros que recusam classificações fáceis — uma abordagem próxima da identidade editorial da Bestia Negra, dedicada a vozes originais e projetos literários pouco convencionais.
O medo começa numa situação familiar
O seu livro assusta ou faz rir primeiro?
Depende do leitor, mas eu tento começar pelo reconhecimento. Um elevador que para entre andares, uma reunião de condomínio que se prolonga demasiado, um vizinho que sabe mais sobre nós do que deveria: são situações comuns. Depois introduzo um detalhe impossível, quase discreto. O leitor ainda está a sorrir quando percebe que há alguém a respirar dentro da parede.
O humor nasce dessa fricção. O fantasma não aparece num castelo abandonado, mas numa assembleia extraordinária, a discutir quotas em atraso. A cena é cómica porque é familiar, porém continua a ser assustadora porque ninguém consegue expulsar uma entidade que já consta da escritura do apartamento.
Então o quotidiano é mais eficaz do que o cenário gótico?
Não diria mais eficaz, mas oferece um contraste poderoso. Uma mansão isolada anuncia o perigo; um supermercado às oito da manhã permite escondê-lo entre carrinhos e promoções. Gosto de colocar o sobrenatural em lugares onde as pessoas estão preocupadas com tarefas banais. O horror torna-se mais cruel quando interrompe uma rotina.
A comédia revela o lado humano do monstro
Tomás rejeita a ideia de que personagens cómicas devam funcionar apenas como alívio. Para ele, o riso também pode aprofundar a ameaça. Uma criatura que se queixa da própria carreira ou um demónio exausto de preencher formulários continuam a ser perigosos, mas ganham contradições reconhecíveis.
Como se escreve uma piada sem quebrar a tensão?
A piada precisa de nascer da personagem, não do desejo do autor de mostrar que é engraçado. Se um vampiro teme pedir férias ao chefe, isso deve revelar a sua submissão, a sua vaidade ou a sua falta de coragem. O leitor ri, mas aprende alguma coisa sobre aquela criatura. Quando o perigo regressa, a cena tem mais peso.
Também é importante saber parar. O humor negro perde força quando explica a própria piada ou transforma cada momento numa sequência de efeitos. Uma pausa, uma frase seca ou uma reação inadequada podem ser mais divertidas do que uma página inteira de trocadilhos.
O absurdo pode ser uma forma de crítica social?
Sem dúvida. O sobrenatural permite exagerar comportamentos que já existem. Um escritório assombrado pode falar sobre precariedade; uma família de canibais pode expor a hipocrisia doméstica; uma cidade tomada por palhaços pode representar a política de espetáculo. O monstro é inventado, mas a sua lógica costuma ser muito humana.
Entre o susto e a gargalhada
A combinação de horror e humor exige controle de ritmo. Uma revelação macabra perde impacto se surgir depois de uma sequência demasiado barulhenta, enquanto uma piada inserida sem preparação pode parecer artificial. Varela trabalha com mudanças graduais, deixando que a cena passe do desconforto ao ridículo sem avisar.
| Recurso narrativo | Efeito no horror | Efeito no humor |
|---|---|---|
| Situação quotidiana | Aproxima o perigo do leitor | Cria reconhecimento e contraste |
| Personagem excessivamente prática | Torna a ameaça mais fria | Produz reações inesperadas |
| Diálogo seco | Amplia o silêncio e a tensão | Sugere ironia sem explicar |
| Monstro com problemas banais | Humaniza a criatura | Expõe o absurdo da situação |
| Mudança brusca de tom | Desorienta e inquieta | Surpreende com uma quebra cómica |
Há uma fórmula para equilibrar os dois géneros?
Se existisse, seria muito menos divertido escrever. Eu penso em termos de confiança. Primeiro, o leitor precisa de acreditar no espaço, nas regras e nas emoções. Só depois posso deformar tudo. O riso funciona quando a ameaça é levada a sério por alguém, mesmo que essa pessoa esteja a agir de maneira completamente disparatada.
Reviso cada capítulo em duas direções. Pergunto se a cena ainda seria inquietante sem a piada e se continuaria divertida sem o elemento sobrenatural. Se uma resposta for negativa, talvez o equilíbrio esteja dependente de um único efeito.
A distopia também pode ter dentes
A conversa aproxima-se de outros territórios da ficção especulativa. Varela considera que o humor é especialmente útil em narrativas sobre sociedades controladas, futuros colapsados e tecnologias invasivas. Ao rir de um sistema absurdo, o leitor reconhece a sua violência com maior nitidez.
Ele recomenda a leitura do ensaio distopia: alerta ou entretenimento para acompanhar essa discussão. “A sátira não transforma uma história em panfleto”, explica. “Pode criar distância suficiente para observar a engrenagem e, em seguida, devolver-nos ao medo de viver dentro dela.”
O humor protege o leitor de temas difíceis?
Às vezes, mas não deve funcionar como escudo permanente. Há assuntos que precisam de permanecer desconfortáveis. A comicidade pode abrir a porta, mas não deve fechar a sala. No meu romance, o leitor ri dos procedimentos do condomínio e depois percebe que todos aceitaram regras monstruosas por comodismo.
O riso também pode ser uma forma de cumplicidade. Rimos porque reconhecemos uma atitude nossa, uma desculpa que já usamos ou uma autoridade que obedecemos sem pensar. Quando essa identificação se instala, o horror deixa de estar apenas no livro.
Personagens ridículas, ameaças reais
A protagonista de O condomínio das almas penadas é Lídia, uma administradora metódica que prefere enfrentar um espírito vingativo a cancelar uma reunião. A personagem poderia ser apenas uma caricatura, mas o autor constrói nela uma ansiedade genuína: Lídia controla papéis e horários porque não consegue controlar a própria vida.
Por que escolher uma protagonista tão pouco heroica?
Personagens corajosas são interessantes, mas as pessoas comuns têm mais espaço para surpreender. Lídia começa por tentar resolver tudo através de regulamentos. Só que o sobrenatural não respeita prazos, assinaturas ou atas. Ela precisa abandonar a fantasia de que a organização impede a tragédia.
Gosto de protagonistas que fazem escolhas imperfeitas. O leitor pode discordar delas e ainda compreender as razões. No horror, a identificação é importante: se ninguém reconhece a personagem, o perigo fica distante. Uma pessoa banal a cometer um erro banal pode abrir uma porta para algo terrível.
O objeto literário também conta uma história
Para Varela, a experiência de uma obra não termina no texto. Capa, tipografia, ilustrações e materiais gráficos podem preparar o leitor para uma narrativa que mistura o macabro com o divertido. Um design demasiado elegante talvez esconda a irreverência; uma imagem excessiva pode revelar o monstro antes da hora.
Essa atenção ao aspecto visual aproxima-se do interesse por pósteres literários mais vendidos. “Um bom objeto decorativo deve sugerir uma história”, afirma. “Se alguém pendura um cartaz com uma casa torta e uma janela iluminada, quero que invente quem está lá dentro.”
Elementos que reforçam o tom da obra
- Uma capa que combine cores sombrias com um detalhe visual inesperado.
- Títulos de capítulos capazes de sugerir ameaça e ironia ao mesmo tempo.
- Diálogos curtos, com pausas suficientes para preservar o suspense.
- Personagens secundárias que tenham objetivos próprios e não existam apenas para fazer rir.
- Um desfecho que mantenha alguma inquietação depois da última piada.
A edição, na sua perspetiva, deve respeitar essa ambiguidade. O leitor pode comprar o livro pela promessa de terror, pelo humor absurdo ou pela ilustração da capa. O importante é encontrar, nas páginas, uma combinação coerente e não uma sucessão de estilos desconectados.
Para quem deseja descobrir narrativas de género com humor negro, fantasia estranha ou horror insólito, vale explorar o catálogo da editora e acompanhar as suas novidades. Entre romances, banda desenhada e objetos gráficos, há muitas formas de entrar nesse território onde o medo sorri antes de mostrar os dentes. Visite a Editorial Bestia Negra e escolha a próxima leitura para uma noite inquieta e divertida.